Supreme e como lidar com o risco de uma marca baseada na reputação

Em 1994, James Jebbia fundou a Supreme, marca de roupas e acessórios para skatistas. Não demorou muito para a marca virar sucesso entre o público-alvo que já consumia streetwear. Mas essa história não é sobre uma marca que conquistou o seu nicho. É sobre a reputação de uma lovebrand. 24 anos depois, a Supreme lança parceria com a Louis Vuitton, uma das maiores marcas de luxo do mundo.

Já há alguns anos, a Supreme mostrava que, diferente das marcas de alto luxo, seu diferencial não estava apenas na qualidade da matéria prima ou no preço de custo para produzir uma peça. O que precifica o catálogo da marca é o frenético desejo do público para adquirir os lançamentos, tratados como objetos de colecionador.

Uma t-shirt, por exemplo, pode chegar a mais de mil dólares, mas não apenas dinheiro compra o produto. Se você não enfrentar uma fila de dias para comprar na loja, pode acabar dependendo de leilões em que os preços ficam ainda mais altos. Em 2016, a Vice entrevistou um rapaz na fila da loja Supreme, no Soho, em Londres, que esperava ansiosamente pela oportunidade de comprar um boné da nova coleção. Ele estava na fila há 23 horas e tinha 18 anos na época.

Nesse cenário, surge a dúvida: e se todos os fãs se frustrassem com a Supreme e resolvessem vender suas peças a preços sucateados? Como lidar com o risco quando seu negócio é inteiramente baseado na reputação? A marca de luxo Burberry, por exemplo, queima estoque não vendido, como uma ação de preservação de sua imagem. O objetivo é evitar que as peças sejam vendidas por valores baixos ou caiam no mercado informal. Só nos últimos cinco anos, o valor total de itens queimados pela marca inglesa ultrapassa os 400 milhões de reais.

O risco geracional também ronda marcas que se sustentam em percepção de valor. Como transitar ao longo dos anos conquistando geração após geração? A Gucci, na primavera de 2018, lançou uma coleção com o seu logo modificado para a fonte da marca de jogos SEGA. Um “autoboicote” que atingiu o público streetwear e acabou funcionando como autopreservação, ao renovar sua imagem e conquistar novos fãs.

No caso da Supreme, o que aguça a vontade do público, todos nós sabemos. A vontade de ser exclusivo e, ao mesmo tempo, fazer parte. Ou seja, ter aquilo que nos diferencia do que não queremos ser e nos coloca num grupo seleto que pretendemos pertencer. Mas o que torna essa história bem sucedida até aqui é que dia após dia a Supreme reforça sua postura, seja com parcerias com artistas admirados pelo público, ou com movimentos surpreendentes, como a recente coleção com a Louis Vuitton.

Em maio deste ano, o vídeo Quanto Custa o Outfit gerou polêmica ao expor o alto preço das peças que os jovens brasileiros estavam usando em uma festa. A Supreme é citada várias vezes e o preço de cada item está na ponta da língua de quem usa. Não há como discordar, o valor das peças também é estético.

Mas o que origina uma reputação de luxo alternativo? Talvez a resposta seja a verdade que James Jebbia, fundador da marca, impõe no posicionamento da Supreme. Em entrevista à Vogue, Jebbia contou que, nos anos 80, trabalhava em uma fábrica, quase sempre ouvindo rock alternativo. É muito imagético pensar que a concepção da Supreme pode ter tido origem aí – num local de fábrica, em que todos são relativamente iguais, Jebbia era diferente ao ouvir David Bowie em seus fones de ouvido. Talvez tenha partido dessa vontade de se diferenciar dos demais que tenha começado a fundar os valores da marca.

No Brasil, as pesquisas do Google sobre a Supreme tiveram um pico em junho, após a viralização do vídeo com os preços das roupas e acessórios. Mas, no mundo, a marca se mantém com o um alto índice de busca durante todo o ano. Ou seja, seu público é, além de fanático, fiel.

Sempre tive a impressão de que as roupas que fazemos são como músicas”, disse Jebbia na mesma entrevista para a Vogue. Para ele, o seu público tem uma mente muito aberta, o que permite que a marca crie novas peças, faça novas parcerias e transite entre o mundo da moda de rua e alto luxo. Jebbia, na verdade, poderia ser um excelente jogador de pôquer – pode até fazer uma jogada arriscada, mas sabe no que apostar.

Com passos de sucesso, ainda não vimos um movimento ruim que abalasse a imagem da Supreme. Mas, se isso acontecesse, o valor de suas peças seria abalado de forma instantânea. Basta uma parceria com um artista que não represente seu público – alguém polêmico ou com ideias conservadoras, por exemplo – para que o desejo se transforme em conflito. Por enquanto, parece que Jebbia mantém a reputação da marca com personalidade e verdade.

Deixe um comentário